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Ensaio sobre a visão
17/9/200819:46:10

Fernando Meirelles é um cineasta de talento. Cidade de Deus surpreendeu pela qualidade da narrativa, pela garra e pela excepcional montagem. O Jardineiro Fiel impressionou pela direção de atores, pelo ritmo cadenciado e agoniado, transplantando para a ação a angústia do personagem de Ralph Fiennes. Ensaio sobre a Cegueira impressionou até mesmo o autor do livro, José Saramago, comunista  decano, que provavelmente contamina suas obras com alguma ideologia mal-fundamentada acerca da exploração do homem pelo homem. Confesso que nunca li Saramago. Seus livros repousam perdidos nas caixas de livros que empilho sem me causar qualquer motivação.
Mas acredito piamente que o filme deve ser impressionante.

O mais legal foi ver como a agência SantaClaraNitro conseguiu fazer anúncios sobre a O2, produtora de Fernando Meirelles, a partir de sua experiência bem-sucedida como diretor de cinema mainstream.

Uma campanha simples, baseada em uma frase, truncada por elementos geométricos apenas delineados. Minimalista, simples, de bela concisão e, ao mesmo tempo, de excepcional conteúdo. Os anúncios falam muito, claro usando um efeito muito comum nas histórias em quadrinhos: sugerir uma seqüência lógica a partir de fragmentos encadeados espontaneamente pela própria mente. Em cada fragmento, reduz-se a quantidade de "produtoras" capazes de executar a "história" até aquele trecho. Ao final da frase, apenas O2. Brilhante.




(A frase do anúncio: "Uma galinha corre entre becos estreitos de uma favela, fugindo de tiros até encontrar um rapaz. Os dois são encurralados por bandidos e policiais. Aí você percebe como a vida de um homem e de uma galinha tem o mesmo valor." Para ampliar, clique aqui.)


A campanha é simples, mas sofisticada, e exprime exatamente o que esperamos ao ver um filme dirigido pelo brasileiro: superação de expectativas. Sim, pois o cinema nacional é de uma mediocridade quase monolítica (as cassandras me atiram pedras, os pseudos me atiram tomates, os nacionalistas me cospem), salvo belas exceções como Central do Brasil, Tropa de Elite, Cidade de Deus, comédias leves como a Grande Família...e poucas mais. Via de regra, temos de sofrer ou parecer engajados, "abertos", "mudernos" para admirar atrocidades como Cheiro do Ralo (uma história nonsense, com final previsível nos primeiros 15 minutos e psicologia rala), filmes do Casseta e Planeta (nossa! São deprimentes...), tolices como Meu tio matou um cara, O Homem que copiava, com roteiros mal-escritos, personagens inverossímeis, fatos burlescos, humor encavalado com drama e violência crua.



(A frase do anúncio: "Um filme adaptado de um romance escrito por um Prêmio Nobel de Literatura tem sua primeira exibição e emociona a todos, inclusive ao próprio autor do livro." - Para ampliar, clique aqui)

Limpo os tomates e cusparadas e retomo o tema... A publicidade brasileira é muito melhor que seu cinema. Não espanta que Fernando Meirelles tenha iniciado fazendo cinema publicitário.Espanta é a maturidade com que dirige, monta e conta histórias em seus filmes. Faz parecer fácil. Assim como a publicidade, aquela publicidade cada dia mais difícil de encontrar, que faz parecer simples uma idéia certamente dura de conceber.

O cinema brasileiro poderia deixar a preocupação ideológica (sempre ela) de lado e buscar histórias mais simples, que não fossem centradas em aventuras amorosas receheadas de comentários sexuais, miséria, abandono e imensidão no semi-árido nordestino, infantilidades toscas e necessidades de se espantar os fantasmas da ditadura. Nos faltam boas histórias, personagens críveis, que pudessem interpretar personagens e não incorporar líderes políticos travestidos de galãs ou heroínas de novelas.

Claro que o cinema nacional ficaria mais forte sem os patrocínios oficiais. Até porque tudo que envolve políticos e política tende a ser medíocre (não por acaso, qualquer campanha publicitária de estatal ou órgão público ou obra pública é de uma chatice ímpar, impávida e colossal). E tudo aquilo que envolve espírito empreendedor, idéias diferentes, talento, gestão tende a ser original ou muito ruim.

A campanha da SantaClara teve o mérito de privilegiar a inteligência, a idéia verbal e a simplicidade. quando a propaganda trabalha de maneira autêntica com esses elementos, ela cria vínculos, agrega simpatia, garante finais felizes e repercute por muito tempo.

Fernando Meirelles sabe disso. É um homem de visão. Falta a outros cineastas um pouco dessa visão..

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)


Comentários (3)
Se vc não lê, nem vai ler Saramago, doe seus livros. Existem pessoas que não tem acesso a livros por causa do preço. Faça alguma coisa "sustentável".
Andréa
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Vc é muito exigente com o cinema brasileiro! ;) Mas essas propagandas da Santa Clara sao fantásticas!! A simplicidade é tudo!
Claudia Chow
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Vale dar uma conferida no blog de Meirelles, contando as etapas de Ensaio Sobre a Cegueira: http://blogdeblindness.blogspot.com/
Jeniffer
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