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Te cuida, Prozac! Pra encarar a crise, Coca-Cola na veia
27/1/200913:14:51

A Coca-Cola, referência mundial de marca forte, ícone, lembrada, admirada e consumida em qualquer país, lança uma nova campanha com nova assinatura/posicionamento: "Open Happiness". Ou seja, algo como "Abra a felicidade", em tradução literal e vulgar.



E a gloriosa América, personificada na nova era de Obama, procura transmitir um pouco de felicidade para o povão norte-americano. Demite-se como nunca, executivos de mercado financeiro fazem pouco de seus delírios derivativos, o país atola-se em guerras justificadas mas infindas, os valores morais que construiram a nação tornaram-se difusos e um tanto abandonados e resolve-se tudo isso com pílulas de felicidade regadas a Pepsi-Cola, Dunkin Donuts (veja post anterior) e agora, Coca-Cola.

Vejam os filmes da nova campanha aqui e aqui. O primeiro chama-se "Avatar" e foi criado pela menina dos olhos da propaganda mundial hoje, a Crispin, Proter + Bogusky. E o segundo filme, "Heist", foi criado pela antiga "darling" do advertising, a Wieden + Kennedy.

Há uma confusão mental aqui. O povo americano, que construiu a maior e mais influente nação da história, que levou ao mundo os conceitos de procura da felicidade, liberdade de expressão e crença no poder do indivíduo e criou a maior máquina inovadora e geradora de riqueza da história, agora precisa de alívio emocional diante dos imensos desafios que tem pela frente... O mesmo povo que enfrentou e venceu duas grandes guerras, que superou uma apavorante recessão em 29, crises políticas, assassinatos de presidência e terroristas alucinados, agora, segundo o raciocínio de marqueteiros ensimesmados, precisa de alento espiritual por meio de comerciais alucinógenos, que representam a fuga da realidade dura das filas de desemprego, das dívidas e lassidão moral.

Isso é populista, e, novamente, me parece muito mais de acordo com governos do tipo Lula do que com governos tipo Obama. O mesmo Obama que o mundo, ou pelo menos a fatia esquerdiota do mundo, é visto como um Messias por conta da cor de sua pele. Nem de longe, caros leitores, ele foi eleito por conta da cor da pele. Obama representa uma personalidade nova na política, veio com um bom discurso e faz parte da elite multicultural - advogado, com experiência de vida em diferentes culturas - que cimentou as bases sobre as quais os EUA tornaram-se a grande potência do século XX.

O fato de americano médio estar deprimido, desencantado e carente talvez o faça se animar ligeiramente com comerciais que façam transfusão de emoção intensa. Mas certamente será a busca pela felicidade individual, pelo auto-interesse, pela necessidade de inovar, ousar e criar que fará o país sair do atoleiro em que se meteu. A crise era previsível, sim. E podia ser minimizada, sim. Foi o dopping da felicidade excessiva, a inoculação de uma droga representada pela nossa era, onde a alegria inebriante, o gozo, a satisfação precisa ser constante, onde a depressão significa a derrota pessoal e a capacidade crítica, o ceticismo foram vistos como vícios e como doenças que talvez tenha tirado os analistas, governantes e cidadãos do saudável exercício de ver a realidade. Apelar novamente para a válvula de escape de que a felicidade precisa ser buscada é simplesmente dar mais droga ao paciente que se recupera do vício...

Pois bem. O exercício do ceticismo, da capacidade crítica, mesmo do mau -humor são libertadores. Ajudam a manter a perspectiva da realidade, o sentido das coisas em um mundo que muda rapidamente. Propaganda vende ilusões. Isso é fato. Mas talvez existam ilusões menos doídas e menos escapistas, onde o humor,o sarcasmo e a busca pelo inusitado ajudem pessoas a se encorajar diante de uma realidade que será dura por muitos e muitos dias. As pessoas talvez vejam Coca-Cola como "felicidade" ou Pepsi como aquela que "tudo refresca". Mas talvez, depois de um tempo, sintam raiva diante desse porre de felicidade, dessa obrigação de ser feliz, que talvez seja irmã da complacência, do conformismo, da inação, quando é possível estar e viver bem, sendo triste, reflexivo, inquieto, e, dessa forma, ser inconformado, ansioso e febril na ação.

Sob esse ponto de vista, qual é o zeitgeist da nossa era?

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)




Comentários (1)
Excelente seu ponto de vista! ;)
Marilia ZAFig
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