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1 milhão de ilusões
3/4/200917:01:13



O governo federal está em campanha franca em favor de Dilma Roussef. Até aí, é do jogo. O que não é nem pode ser deste jogo é sair por aí fazendo propaganda enganosa.


O setor público brasileiro parece não ter limites ou acanhamento para explicar o inexplicável, manter a compostura, trabalhar em prol da decência. A noção daquilo que é certo, ético ou pertinente perde-se em toda sorte de desvios de comportamento. Os padròes morais estão esgarçados. Nada mais choca ou constrange nossas "otoridades".

Obviamente que políticos sentem-se à vontade para agir dessa maneira com o dinheiro público porque tem a exata noção da complacência, ignorância e desleixo que todos nós, brasileiros, mostramos quando o assunto é cobrar, exigir respeito e ética. Todos nós cometemos nossas desonestidades à distância: estacionamos em cima da faixa, utilizamos o e-mail corporativo em assuntos pessoais, levamos um lápis preto ou uma cola da empresa para o filho fazer um trabalho de escola, estacionamos nas vagas de pessoas com necessidades especiais nos shoppings, furamos fila, usamos meia-entrada porque temos carteirinha fraudada e procuramos nos encaixar em alguma "bolsa" governamental para arrumar uns caraminguás. O governo atual é pródigo em assistencialismos e em comprar mentes e corações: já temos Bolsa-Família para supostos famélicos, Bolsa-Ditadura para supostos "presos e torturados" pela ditadura, Bolsa BNDES para socorrer empresas em dificuldade ou para formar empresas nacionais pseudoestatizadas em setores, digamos, "estratégicos", Bolsa-Selic para garantir lucros altos do mercado financeiro, Bolsa-Cultura para levar cultura proselitista e pseudoengajada para as "massas", Bolsa-Cotas para fazer estudantes com educação formal básica e secundária sofrível terem acesso a Universidades ruinzinhas e por aí vai.

Agora, o governo saiu com o Bolsa-Moradia. O nome publicitário é "Minha Casa, Minha Vida". Promete juros subsidiados e financiamentos para populações de baixa renda poderem comprar a sonhada casa própria. "Minha Casa, Minha Vida" é marca tão bem bolada quanto "PAC", que significa dar um carimbo a qualquer coisa que este governo venha a fazer. É um guarda-chuva. Ou seja, se um tijolo é cimentado no sertão da Paraíba ou uma choupana é estilizada no Amazonas, a propaganda oficial no diz que é obra do "PAC".

Assim, veremos dentro em breve, casinhas rústicas, feitas pela notoriamente duvidosa engenharia nacional sendo entregues gloriosamente como obra do "Minha Casa, Minha Vida".

Claro que o PAC e o Bolsa-Moradia não passam de obra de ficção. Ao governo interessa o efeito da propaganda, do número bombástico para ancorar expectativas e garantir que a mãe Dilma fique bem nas pesquisas. O projeto é de poder e não de país. E assim, a partir já dessa semana, vamos cantarolar a musiquinha do "Minha Casa, Minha Vida". A campanha é tão publicitariamente publicitária, que veicula uma mensagem rigorosamente vazia.

Acabo de ouvi-la no rádio. Quase engasguei com a saliva ao ouvir a musiquinha falar que as pessoas terão suas casas, que o governo construirá 1 milhão delas. "Na falta do que dizer, cante" é um dos truques mais velhacos que a propaganda maliciosa gosta de usar. E o jingle chega ao seu final quando tem um arremate sensacional! Coisa de profissional mesmo. Se qualquer empresa de produtos de consumo, telecom, internet, serviços terminasse suas mensagens publicitárias seria massacrada internet afora.

Como termina o jingle, a musiquinha do Bolsa-Moradia? Com a voz descontraída e confiante do locutor: "PARA MAIS INFORMAÇÕES, BUSQUE NA INTERNET."

Não é revolucionário? Nada de site, nada de palavras oficiais, nada de ambientes que possam comprometer a imagem da hora, o lançamento bombástico. "BUSQUE NA INTERNET". Se a sua casa não for construída ou seu Bolsa-Moradia não for concedido, culpe o Google. Ele é que não trouxe o resultado correto na busca.

Gostaria de ver se o MP, o Instituto ALANA e outras ONGs cheias de torpor ideológico irão protestar contra essa propaganda enviesada, oportunista, maliciosa... Esse pessoal que adora inventar projetos para limitar a ação da propaganda comercial (e, por extensão, "reeducar a população" e limitar a independência da mídia ainda crítica desse país, que garante independência com base na veiculação de publicidade comercial) talvez devesse cobrar ao menos um endereço, um site, um telefone para que os projetos oficiais do "Minha Casa, Minha Vida" sejam divulgados.

Ah, dirão os bons selvagens: "o governo só está começando a informar as pessoas. Logo, logo, haverá site e tudo o mais". Ué? Se não existe informaçào disponível e consolidada, para que veicular propaganda? Para desperdiçar dinheiro público?

Well...Vamos começar a contar. Em 18 meses - o que falta para o governo Lula terminar - construir 1 milhão de casas significa entregar 55.550 casas por dia. Não há recurso, gente e capacidade técnica para isso. Se Lula fizer Dilma como sucessora, prometerá que ela entregará o restante, umas 900 mil casas pelo meu chute descompromissado, nos 4 anos de seu governo. Se Dilma perder a eleição para seja lá quem for, Lula dirá que a responsabilidade é do próximo Presidente. Em qualquer situação, baseado na ignorância nossa nos rudimentos da matemática mais tolinha, a propaganda prevalece.

1 milhão de ilusões. Está vendo o que é possível fazer com alguns milhões de reais em propaganda.

(Postado por Jacques Meir - propagandasustentavel@gmail.com)

PS: Esse post presta uma homenagem a um grande criador publicitário que faleceu hoje: Pedro Alcantara. Grande redator, grande caráter. Com Pedro Alcantara muito aprendi e me surpreendi mesmo no convívio errático de uma agência. Seu texto e sua ética deixam saudades.


Comentários (1)
Fútil para uns, vida para outros. Achei a crítica bastante válida, mas não diria correta. O assistencialismo, tão criticado e ironizado, desenvolvido no governo Lula, mais do que propaganda, eu diria é necessário: é questão de sobrevivência para muitos. Pessoas morrem de fome, sem ter o que comer. A bolsa torna o alimento possível e desenvolve a econômia de micro-regiões. Já o "Minha Casa, Minha vida", a princípio também achei que deveria ter um site. Mas, muito espertamente, ao procurar na internet (Google), existe um link patrocinado que aparece na primeira posição. Vc incentiva o interessado a buscar informação sem dificuldade. O ponto que considero principal, não é falar um site na propaganda, mas sim ser dirigida para quem não será beneficiado. Isso caracteriza a informação voltada para votos e não os interessados. Quem precisa de casa, não tem internet!
Diego
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