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Você já reparou em um fenômeno chamado Aquecimento Global?
13/4/200913:13:51

Um comercial sobre aquecimento global criado para o Multishow (canal Globosat de TV a Cabo) criado pela agência Ponto de Criação/Fluor me chamou a atenção nos últimos dias.

Banquei o publicitário típico. Como sabem, só publicitário (e pessoal de marketing que gosta de valorizar o próprio trabalho) é que racionaliza sobre propaganda. A maior parte delas vê, gosta e quando muito, comenta. Muitas pessoas, no site do Clube de Criação (aqui) acharam que o filme é "premiável". O sentido de premiável, lógico, é que o filme pode ganhar prêmios no próprio Clube de Criação, no FIAP, no Wave e, quem sabe, em Cannes.

Vejam o filme abaixo.





Gostei da ideia. Algo na realização me inquietou. Estranhamente, o filme perdeu o impacto depois que o vi pela primeira vez. A ideia da peça é simples. O aquecimento global é um fenômeno que pode passar despercebido, quase sorrateiro, como um vírus que lentamente instala-se no corpo e quando nos damos conta é tarde demais.

O conceito é correto. Faz sentido e espelha uma verdade irrefutável. Da forma exposta, mostrando o executivo que todo dia sai de casa e não se dá conta do problema enquanto ele ganha novas proporções, é adequado. Fazemos isso diariamente, preocupados com as coisas do cotidiano e nunca com o mundo em volta. Não tiro o mérito do comercial. Acho que publicitariamente ele funciona e merecerá os prêmios que vier a conquistar. Mas infelizmente não o considero um primor, seja de realização, seja de empatia. Não é um filme que queiramos rever e que, quando revisto, chamamos a atenção para o colega.

Porque na verdade essa abordagem do aquecimento global ainda nos faz guardar distância segura do problema. Explico. É justamente nessa distância segura que mantemos do assunto, que o comercial valoriza e exagera, que rapidamente absorvemos a mensagem e a esquecemos. Parece complicado? Vejamos. O ser humano não tem aparelho mental para lidar com essa noção de "aquecimento global" deixar ursos perdidos em pedaços de gelo. Nos apiedamos do urso mas imediatamente focamos em coisas mais comezinhas do cotidiano.

A resposta para esse comportamento? Somos péssimos matemáticos. A divulgação das previsões do tempo feitas pelos climatologistas, sempre baseados nas médias históricas não ajuda muito. Por exemplo, na média, tivemos um verão tão quente quanto os anteriores. Mas o que vale e o que é indício de problema nunca é a média, é o extremo. Assim, o temporal fora de controle, os 3 dias de seca ou de chuva prolongada é que criam efeitos devastadores (lembrem-se da famosa desculpa: "choveu hoje o equivalente a metade da média mensal"??). Ou seja, na média ficou tudo estatisticamente correto. No extremo, milhares de pessoas foram afetadas. A intercorrência de efeitos extremos no clima é que atesta o aquecimento global e não o efeito cumulativo, pouco a pouco, dia a dia.

A mídia, os jornais e noticiários também colaboram para o problema, na medida em que não demonstram o menor entendimento da questão. De modo prático, o que podemos fazer para diminuir os efeitos do aquecimento global, de modo científico, empírico e simples? Como realmente fazer as pessoas entenderem que "o uso do carro lança compostos gasosos, que, somados a produção das fábricas e de lixo, causam poluição que afetam a atmosfera e esses compostos, interagindo com correntes climáticas, realçadas pelo desmatamento desregrado que muda os níveis de evaporação,  podem reduzir as geleiras e então afetar o clima decisivamente?"

É complexo em excesso. E a consequência, por mais que me pese dizer isso, não deve ser a imagem de ursos polares perdidos em geleiras derretidas, mas sim pessoas em casas inundadas, plantas quebradiças pela seca, ar irespirável em metrópoles. Nada contra ursos e natureza. Mas o problema do aquecimento global precisa ser mostrado sem analogias, para que as pessoas enxerguem-se no problema e vejam o que perderão se deixarem as causas, supostas e /ou cientificamente comprovadas, se intensificarem. O bicho-homem é movido a autointeresse. Ou mostramos as perdas reais que eu você e os outros sofreremos ou teremos mensagens bonitas, apropriadas mas longe de serem contundentes.

Tenho absoluta certeza que uma campanha que mostrasse dados mais concretos, como temperaturas extremas provocam pequenos prejuízos, como chuvas extremas desabrigam muitas pessoas e questionando se são apenas fenômenos naturais ou aquecimento global. Não há evidências mas é necessário que haja. E a comunicação pode levantar essas inquietações forçando pesquisas por um lado e comportamento menos alienado de nossa parte, de outro. Ela precisa ganhar relevância para afetar as pessoas.

O aquecimento global pode ter ou não efeitos relevantes sobre nosso relacionamento com a natureza, sobre a produção, sobre a vida no planeta. O tempo e as pesquisas dirão. Mas de nosso lado, não devemos ignorar o problema, nem submetê-lo a analogias. Temos de inquietar, incomodar. Nesse sentido, o comercial da Ponto de Criação/Fluor tem todos os méritos. Mas tal e qual o problema que aborda, precisamos ser menos sutis e mais incisivos.

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)


Comentários (1)
Concordo! Como se diz não pe o planeta que está a beira da extinção mas sim o ser humano. Ou pelo menos grande parte deles...
Leonardo Assis
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