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Campanha dos Jogadores Anônimos. Será que um dia teremos campanha em prol dos Corruptos Anônimos?
11/5/200914:04:52

Uma das formas mais comuns de se projetar uma agência de propaganda, mostrando sua "capacidade criativa" é criando, voluntariamente, campanhas para ONGs, instituições, ações filantrópicas e outros populismos do gênero.

A campanha aqui enfocada (vejam anúncios reproduzidos nesse post,com objetos formados por cartas e o título "Quanto mais você joga, mais você perde."), dos Jogadores Anônimos (site aqui), foi criada pela Agência 3. Como de hábito, a campanha apresenta uma excelente solução visual, uma ideia interessante e uma frase que induz à "reflexão". Como sempre, essa campanha, a exemplo de diversas outras passará despercebida. Sua veiculação ficará inicialmente circunscrita à Revista Piauí e não posso afirmar quantos leitores dessa revista são "jogadores compulsivos".



Por que as campanhas de cunho social falham miseravelmente? E por que as julgo uma classe menor, desprezível de propaganda?


Campanhas "sociais ou de utilidade pública" procuram vender ideias. E para isso usam artifícios da publicidade mais tipicamente comercial. Associações inusitadas, imagens de grande impacto, textos para se "refletir". Tentam vender ideias e conceitos, preconceitos e caridade como se estivessesm vendendo moda, carros, bebidas ou qualquer outro produto. Nada disso, salvo uma ou outra exceção funciona, claro. Pessoas são movidas pelo autointeresse e a não ser que consigam vislumbrar ganho na mensagem, simplesmente irão ignorá-la. Alguns irão berrar e me chamar de idiota: "E campanhas como o Mac Dia Feliz, Criança Esperança  Não são sociais? E campanhas em prol dos desabrigados de enchentes e de seca? Não são sociais?". Há distinções claras aqui e elas ligam-se à reputação e credibilidade. Mac Dia Feliz, Criança Esperança e outras ações patrocinadas por empresas privadas conquistam adesão porque mostram nitidamente que a empresa "x" ou "y" está interessada em reverter parte de seus ganhos em prol da comunidade. Ea comunidade vê aí uma forma de "comprar" sem culpa. doa de bom grado, porque sabe que o dinheiro chegará de fato a quem precisa. No caso de campanhas de arrecadação de alimentos e gêneros para vítimas de catástrofes naturais, a adesão vem por conta do esforço de relações públicas. Ao ver na TV, no jornal, na revista, o drama de pessoas de má sorte, automaticamente no solidarizamos. A mídia, em cima de sua reputação, mostra que o drama das vítimas é sincero e assim, usa sua reputação para que nos sintamos motivados a doar.



Mas uma campanha de uma ONG, salvo aquelas que já conquistaram projeção na mídia, como SOS Mata Atlântica e Greepeace, normalmente significa apenas uma peça no portfólio da agência, alguma repercussão em premiações pubblicitárias e algumas migalhas para a instituição "beneficiada" pela magnanimidade de uma agência e de alguns veículos.

São campanhas que carecem de credibilidade, não obstante tratem de assuntos e dramas reais. Uma das formas de se agregar credibilidade à ONG "x" ou ao Lar Escola "Z" seria ver mensagens exibidas fortemente em horários nobres ou em páginas de jornais importantes e revistas idem. Mas o que garante a independência da mídia e, no Brasil, certa distância do patrulhamento ideológico é justamente a publicidade comercial. Daonde ficar abrindo espaços e mais espaços para campanhas comunitárias ou sociais é inviável.

Resumo da ópera: a campanha do Jogadores Anônimos recebeu aqui algum destaque e tomara que consiga algum destaque a mais, a ponto de levar pessoas que necessitem a procurar ajuda. Mas tenho cá meu ceticismo. Acho que ela ajudarámais publicitários que jogadores compulsivos.

De todo modo, a campanha serve para tirar do armário um problema real: pessoas que jogam compulsivamente e perdem tudo, inclusive o respeito alheio, dos familiares porque precisam sentir a emoção do jogo. Vencer ou perder importa menos que estar quimicamente inebriado pela sensação reconfortante do jogo. Ou do sexo ou de alguma outra droga ou vício qualquer.

Todos os dependentes químicos, os compulsivos precisam de ajuda. Mas, lógico, precisam querer ser ajudados antes.

A exceção fica por conta de uma classe:a dos corruptos compulsivos. Como o noticiário independente vem martelando há dias, não há limites para a desfaçatez no trato com o dinheiro público, com licitações, passagens aéreas, verbas indenizatórias, mensalões, loteamento de cargos, obras hiperfaturadas, comissões por permissões de exploração de áreas das casas legislativas por restaurantes e por aí vai. Em nenhum momento vimos alguém dizer que o país está doente, viciado em práticas de "desonestidade à distância", do produto pirata que compramos, do lápis que pegamos da empresa, da caneta que levamos inadvertidamente da reunião com o cliente, da tarifa cobrada pelo banco sem prestar serviço equivalente, do ponto de TV a cabo cobrado sem que haja qualquer custo que justifique a cobrança, na recusa do encanador em fazer laudos por escrito das obras e porcarias que fará na sua casa e por aí vai.

Estamos caminhando compulsivamente para um estado de torpor de autoengano com a corrupção que nos cobra todo dia um punhado de nosso caráter e de nossa moral.

Eu e você somos compulsivos, leitor. Eu e você cometemos pequenas corrupções todos os dias e aceitamos que nos corrompam todos os dias. E damos desculpas esfarrapadas, como bêbados que afirmam não serem alcoólatras: "todo mundo faz", "é coisa sem importância", "por esse valor não pega nada".

Será que uma campanha publicitária dá jeito na gente? Ou será que vamos ficar jogando com a sorte, dizendo que a culpa é "dos políticos safados?" Até quando vamos querer jogar ao invés de trabalhar em prol da democracia, expondo feridas no bom debate?

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)


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