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10 meses de trabalho para fazer você parar de fumar em 10 segundos
26/8/200916:56:05

A Neogama/BBH, agência de trabalho criativo dos melhores no atual cenário nem tão inspirado lançou uma campanha para a Associação de Defesa da Saúde do Fumante - ADESF.

O curioso é que a campanha é tão elaborada, tão sofisticada, tão requintada, demandou tanto trabalho, tanto apuro, tanta qualidade criativa que a considero desproporcional diante do objetivo. Imaginem: colocaram exércitos invasores, medievais, atuais e futuristas, como as susbstâncias nocivas contidas no tabaco. Um espetáculo de produção! Vejam abaixo.



Vamos por partes, como diria meu xará: motivar pessoas a parar de fumar é uma causa nobre, sem dúvida. Ainda que exista o livre arbítrio que motive pessoas a tragar seus cigarros, o fumo passou a ser mal visto socialmente. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e capitais mundiais baniram o cigarro de restaurantes, shoppings, bancos, repartições, locais fechados. Mas os malefícios do cigarro são disseminados em larga escala. É quase como bater em bêbado ladeira abaixo. Explico: o cigarro é alvo fácil. Dia após dia, meios de comunicação, livres do receio de abordar negativamente um potencial anunciante, uma vez que as empresas produtoras de cigarro foram banidas da mídia há anos, alertam para as substâncias nocivas, mostram indenizações milionárias ganhas por ex-viciados, vítimas de doenças causadas pelo fumo, destacam as leis que impedem fumantes de soltarem sua fumaça impunemente
. Desse modo, a propaganda já sai perdendo para a própria mídia.



Qualquer campanha, por mais intrigante que seja, irá apenas realçar, tornar mais expressivo um mal já suficientemente explorado, divulgado e alardeado dia após dia.

Nesse sentido, por mais cuidado, por mais capricho e disciplina, tempo e investimento que a Neogama tenha dispendido na (bela) campanha, acredito que seu objetivo primeiro é portfólio... (putz! Escrevi até aqui para concluir algo tão banal?), o objetivo segundo é mostrar capacidade de realização, o objetivo terceiro é faturar uns prêmios por aí, o objetivo quarto é ver alguém comentar a qualidade das peças, o objetivo quinto... qual era mesmo? Parar de fumar! Ah, certo...

É pertinente? É. É adequado? Talvez. É relevante? Hmmm... nem tanto.


Em resumo: a campanha é memorável, fruto de trabalho intenso. Foram 10 meses de produção! Entenderam? 10 meses de trabalho para uma campanha cujo objetivo é tentar motivar pessoas a pararem de fumar, a refletirem sobre essa atitude em menos de 10 segundos, folheando uma revista como a Trip (para quem a campanha foi criada a pedidos. Vejam aqui um detalhe ampliado de uma foto).

Talvez os fumantes fiquem envaidecidos ao verem que seu vício demandou quase um ano de trabalho intenso ("... as imagens foram construídas em 3D, em processo que contou com a colaboração da Casa do Vaticano. Cada personagem foi modelado individualmente
..."). Mas será que por conta de tanta elaboração, tanto talento, tanta qualidade gráfica, algum fumante abandonará seu vício. Ok, alguém dirá que o objetivo é conscientizar, que é logicamente impraticável acreditar que alguém deixe de fumar por causa de um anúncio, etc. Mas aí, então, para que a campanha? Peças mais simples não teriam o mesmo efeito ou cumpririam de modo tão brilhante objetivo tão inglório?

Esse processo não fecha, infelizmente. Damos nossos parabéns a todos os envolvidos  na campanha mas sinceramente achamos que toda essa incrível demonstração de potencial deva ser canalizada para produtos, campanhas, serviços e marcas que prestem contas e precisem gerar resultados. A Neogama/BBH mostrou claramente que sabe fazer como pouquíssimos. Mas queremos ver tal qualidade em campanhas de carros, bancos, tênis, revistas, operadoras de celular. Sim, conhecemos o portfólio da agência e seus cases. Alto nível, mas aquém de um grupo capaz de fazer tanto por uma campanha contra o cigarro.

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)


Comentários (1)
hehehehe Bela análise!
Claudia Chow
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