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Ser melhor empresa para se trabalhar: marketing, demagogia ou diferencial?
18/12/200914:16:00

Vi no Estadão do último dia 15 de dezembro, um caderno/suplemento dedicado às melhores empresas para se trabalhar. Sempre me perguntei até que ponto é relevante estar presente em uma lista desse gênero. Mais: até que ponto estar em uma lista das "melhores" significa que a empresa preencha requisitos que a classifiquem como tal.

Em tese, acredito que a maior parte de colaboradores e empregados sintam-se motivados, estimulados, contentes por fazerem parte de um grupo vencedor. É a velha história. Queremos a vitória, nem que para isso precisemos aturar um bando de chatos ou impertinentes.




A tese de Clemente Nóbrega exposta de modo contundente no excelente livro "Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?" de que o assunto "gestão de pessoas" libera mais calor do que luz e de que verdadeiramente não trabalhamos para ser "felizes" me parece de uma lucidez à toda prova.

"Felicidade é com você", conclui Clemente. Isso porque empresas - "a maior tecnologia já inventada pelo homem" - são organizações voltadas para geração de valor. Dinheiro, recursos, é que garantem sua subsistência. E para gerar recursos, as empresas precisam "harmonizar", "engenheirar" pessoas diferentes, provenientes de ambientes diferentes, com culturas diferentes em torno de um objetivo central. Exatamente por isso que gestão demanda um esforço incomum. Não é fácil trabalhar com pessoas diferentes e colocar o autointeresse alheio a serviço das necessidades e dos objetivos das empresas. Mas é exatamente essa busca por eficência, por crescimento, por produtividade que faz com que as empresas impulsionem o progresso humano.



Dado momento, na fantástica jornada da empresa moderna, percebeu-se que a motivação de funcionários poderia facilitar a conquista de bons resultados. O problema é que como toda teoria aplicada à gestão das empresas, a prática é outra. Varia de empresa para empresa. Isso quer dizer que organizações podem ser eficientes mesmo com uma "gestão de pessoas" rudimentar. A cultura da empresa, a visão da liderança podem ter orientação predadora, voraz, competitiva e "canibalista", no sentido de provocar os empregados a superarem-se uns aos outros (diversos bancos de investimento têm esta orientação, agências de propaganda também). Ou seja, não existe evidência clara, cristalina, um estudo confiável verificado por empresas dos mais diversos setores, de capital aberto e fechado, realizada ao longo de um período longo que ateste que ser "uma melhor empresa para se trabalhar" signifique tanto resultados para o acionista como reconhecimento para o funcionário.

Por isso, ao ver os resultados dessas pesquisas, fico um tanto quanto ressabiado. Há o marketing da coisa toda, anúncios que procuram realçar a qualidade e o "espírito vencedor" da empresa escolhida. Os anúncios, logicamente são perfeitamente legítimos e fazem parte do jogo, do ritual e até mesmo como prestação de contas pela conquista. Mas há uma certa demagogia, talvez uma implicação ou associação que nem sempre se verifica, entre a força da empresa e sua percepção como charmosa, atrativa para talentos e, bem, sua atuação um tanto a desejar junto aos clientes.



Tome-se o caso da Telefônica. Acredito que ela seja uma empresa atrativa, pelo seu porte, a importância dos produtos e serviços que oferece. Mas será que os funcionários da empresa realmente sentem-se satisfeitos por trabalhar numa empresa que teve a venda de sua "banda mezzo larga" suspenso por meses por conta das falhas no serviço? Ou será que fazer parte de uma "melhor empresa para se trabalhar" vai de encontro ao que redigi acima - apenas orgulho por fazer parte de uma empresa que, reinando sozinha ou com concorrência incpiente - agir de acordo com o autointeresse apenas?

No caso do Itaú Unibanco, será que ela pode ser uma "melhor empresa para se trabalhar" depois da longa greve no mês de agosto? Uma empresa de qualidade motiva seu pessoal de linha de frente a fazer greve? E esse pessoal da greve foi ouvido?

Da mesma forma, vendo o anúncio da Vivo, é correto pensarmos que a empresa é estimulante com o número de reclamações que têm no PROCON?

Alguém pode me perguntar se não estou forçando a barra, procurando estabelecer relações entre a atuação da empresa no mercado e a imagem que ela tem da porta para dentro. Pois bem: da mesma forma que um colaborador "feliz" pode contribuir para um bom resultado, deve contribuir para um serviço ruim ao cliente? Por que ou existe de fato relação entre trabalhar em uma empresa tida como legal ou então a lista é apenas uma falácia ou, no máximo um estratagema, um sofisma, uma forma de ludibriar as próprias empresas sobre suas virtudes ou defeitos?

Friamente, será que a Vivo é realmente uma empresa para se trabalhar melhor que a TIM? Ou a Amil seria melhor que a Porto Seguro ou a SulAmérica? E se compararmos a listagem das "melhores empresas para se trabalhar" com a as listagens/rankings de empresas mais admiradas, mais prestigiadas ou mais respeitadas o que encontraríamos? É possível estar em uma das melhores empresas para se trabalhar não estando ela no ranking de empresa que mais o consumidor? Existe relação entre os fatores que determinam este ou aquele ranking? Desvios médios para cima ou para baixo nos indicadores podem retirar uma empresa de um ranking e colocá-la em destaque em outro?

Em resumo: vale a pena valorizar o fato de ser uma das "melhores empresas para se trabalhar"? Esta é uma questão sem uma resposta convincente com os elementos que temos em mão. Veremos o que os leitores têm a dizer. De meu lado, acredito que o peso efetivo de qualquer correlação que se faça entre esta listagem e os resultados das empresas nela presentes são inconsistentes. Mas, vou estudar o tema. Espero poder voltar a ela com mais subsídios. E conto com a ajuda dos leitores para isso.

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)


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