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Ser uma das melhores empresas para se trabalhar vale um anúncio?
9/12/201018:32:28
No último dia 30/11, o Estadão trouxe um caderno extra dedicado às maiores dentre as melhores empresas para se trabalhar no Brasil.
O mercado corporativo é cercado de mitos, falsas verdades, axiomas que acabam por se tornar jargão declamado aos 4 ventos e nas palestras mundo afora. A importância e a hipervalorização da gestão de pessoas é um desses axiomas.
Não nego que pessoas são de vital importância para qualquer tipo de empresa. Mas temos aqui uma questão clássica sobre o que vem primeiro: a liderança e o estilo de gestão capazes de inspirar e, melhor, enquadrar as pessoas para que objetivos sejam atingidos ou um grupo de profissionais que exercem funções a esmo sem uma visão clara de objetivos, metas, derivadas de gestão ineficaz e liderança débil? A questão pode estar colocada de modo simplista, mas normalmente as boas práticas de gestão requerem raciocínios simples, contundentes, agudos, para evitar complacência ou filosofia contraproducente.
 No caso do caderno extra do Estadão, além de matérias que procuram retratar como a gestão de pessoas e supostos benefícios para colaboradores renderam frutos. Uma série de anúncios (espalhados pelo post)tecem loas aos colaboradores, à conquista de um lugar no ranking e funcionam como exercícios de autoelogio banal.
Não é possível se iludir. O que determina o sucesso e o fracasso de uma empresa, é a capacidade da gestão desenvolver processos, recursos e valores que trabalhando em harmonia possam gerar fluxo contínuo de dinheiro novo. A dinâmica desses três vetores - recursos (pessoas e investimento), processos (organização, métodos, fluxograma, tarefas) e valores (a cultura da empresa, sua missão, visão) constrói um ambiente que aos poucos molda vícios e virtudes, expurgando naturalmente aqueles que não se enquadrem ao sistema. Em outras palavras, a gestão de pessoas funciona apenas para profissionais que identificam-se com a cultura da empresa ou vá lá, sabem ocupar espaços pelo tempo necessário até que surja uma ocupação mais adequada para seu estilo.
Antes do autoelogio fácil, convém verificar se os colaboradores realmente fazem suas tarefas de modo produtivo, se os indicadores e métricas gerais de avaliação são atingidos, se a empresa apresenta resultados sólidos. Tanto melhor se os resultados derivem de um ambiente fora do comum, capaz de fazer consumidores satisfeitos. Por que a sobrevivência da empresa passa antes pelo resultado e depois pela satisfação dos funcionários.
Além de tudo, a pesquisa sofre de um viés bastante claro: afinal existem empresas com funcionários digamos descontentes e que apresentam resultados expressivos? Claro.
A ascensão da geração Y e sua busca pela satisfação acima de tudo, seu voyeurismo corporativo excessivo e sua pressa ajuda a criar a distorção de que todos os esforços devem ser feitos para preservar e reter talentos. Mais uma vez aí o que se observa é que os talentos devem se acomodar à cultura e aos objetivos da empresa. Na letra fria do pragmatismo: se uma empresa precisa mudar a ponto de subverter a cultura sobre a qual se ergue e se desenvolveu, talvez essa empresa não mereça ocupar um lugar ao sol.
Por outro lado, os anúncios, as edições especiais que destacam as tais "melhores empresas para se trabalhar" podem até mesmos configurar exercício de populismo barato. Porque acima de ser a "melhor empresa para se trabalhar", "a empresa anunciante do ano", "a empresa mais admirada", "a empresa mais lembrada" é ser "a empresa mais rentável" e "a empresa de melhor reputação".
É complicado e desfiador imaginar empresas que não sejam locais satisfatórios para se trabalhar e que por extensão tenham uma reputação combalida, mas a premissa é válida. O fato é que as empresas de melhor reputação e as mais honestas para se trabalhar são justamente aquelas que sabem que a busca da felicidade é uma responsabilidade individual, de cada empregado, de cada acionista. Nenhuma empresa pode se arvorar o direito de interferir ou determinar o estado de espírito de seus funcionários. Empresas orientadas por valores morais sólidos sabem a satisfação profissional é uma pequena parte da equação que torna uma pessoa mais feliz, mais motivada e confiante. São justamente as empresas empenhadas em colocar as pessoas certas nos lugares certos, daonde perfumarias de gestão - cursos motivacionais, autoajuda, quiromancias e pejalanças - não fazem diferença. Colocar pessoas nos lugares certos objetiva tão-somente gerar maior produtividade, qualidade elevada, dinheiro novo.
A melhor empresa para se trabalhar é aquela que exige mais de você, de modo mais ou menos intenso, onde você pode ser promovido ou demitido com honestidade e transparência, onde seus pontos fortes prevaleçam sobre os fracos. Anúncios não fazem isso por ninguém. Propaganda nesse caso é mero exercício de vaidade. Ao fim e ao cabo, o que vale é o resultado: o que você tem a ganhar emprestando seu talento para que seja usado de forma sistemática juntamente com os talentos de outras pessoas que você pode ou não conhecer, pode ou não criar laços de amizade, com o objetivo autêntico de gerar valor para a empresa, seus acionistas e seus clientes.
Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)
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