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A Rede Social não é só um grande filme. É zeitgeist
24/12/201016:21:55



Fui ver a Rede Social, o filme de David Fincher, com roteiro de Aaron Sorkin. Você deve ter lido a respeito e talvez visto o filme. Como cinema, é uma obra impecável, que atesta a maturidade do excelente Fincher, que há dois anos nos premiou com o magnífico (e injustiçado) Benjamin Button. Mas o que me impressionou na fita (termo anacrônico para designar "filme" nessa era de apego incondicional ao digital) foi como ela detecta de modo preciso o espírito de nosso tempo.


A trajetória de Mark Zuckerberg, "Homem do Ano" na revista Time, que dos 19 aos 26 anos tornou-se o mais ilustre representante dos bilionários da internet ao criar o Facebook, revela um homem pequeno, incapaz de manter, cultivar e dimensionar relacionamentos. Um nerd ensimesmado capaz de prodígios técnicos à frente de uma tela e no ataque feroz ao teclado mas incapaz de compreender como honestidade, princípios, amizade, valores e concepções morais combinam-se para formar um caráter digno. Mark leva um fora da namoradinha, porque tenta racionalizar e emoldurar o comportamento dela, trai ou ignora os almofadinhas de Harvard, representantes de ideal olímpico que lhe apresentam a ideia que foi o embrião do Facebook (O Harvard Connect), afasta o até então grande amigo, curiosamente um brasileiro, que fora seu sócio na empreitada inicial do site para alçar voos maiores. O Facebook é hoje um mundo à parte. Um depositário de confidências e inconfidências, paixões, gostos, comentários e crônicas sociais, mediocridades e irrelevâncias, acesso a conteúdos variados e valiosos, rótulos, convenções, lembranças devidamente murado caminhando ao largo e embutido na nuvem caótica da internet.


Nunca uma geração resceu tão conectada a todos e a tudo e obviamente tão imprecisa, indecisa e constrangedora no relacionamento interpessoal. A facilidade de inserir fatos e fotos, tolices e curiosidades pessoais no Facebook, constrasta com a dificuldade de se criar e se expor em um diálogo franco, sincero e que privilegie o enriquecimento.




A Rede Social é puramente "Zeitgeist". Retrata fielmente o espírito do nosso tempo atual, suas contradições, desafios e expectativas, frustrações e vitórias, buscas e perdas, ganhos e lacunas. Destaca como um soco no olho o quanto o exercício da comunicação ganhou complexidade. As ferramentas estão às mãos mas o uso é contraditório, difícil, penoso. Pensar em propaganda para um público que tende a dispersar a atenção, que fraciona o conteúdo, que fragmenta o sentido é um exercício de reinvenção. A velha premissa de que a responsabilidade pelo sentido na comunicação é do receptor hoje é uma verdade. E uma verdade extraordinariamente brutal. Porque pensar de modo trivial, focado pode não trazer ou fazer sentido. O Facebook inaugura sua nova interface justamente porque detecta essa atenção pulveriza, esse shopping múlti-estímulo, fotos, frases, vídeos, colagens em um mural feérico onde nada isoladamente faz muito sentido e em conjunto o sentido não é literal. É sugestivo, incômodo, colorido, esquizofrênico.


Os padrões da propaganda irão refletir essa nova atitude e esse comportamento que concentra sensações na tecnologia e insensibilidade no contato pessoal. A cortesia e a gentileza terão seu lugar mas de modo imprevisto. As regras de etiqueta poderão ser desvirtuadas. Enquanto as agências debatem-se com os impulsos da "comunicação integrada", o público-alvo que cresce mimetizado pelo Facebook buscará a desintegração, a multiplicidade, a contradição. Não deixa de ser irônico que este post será divulgado no próprio Facebook, num exercício despudorado de vaidade.

Não sei se nosso aparelho cerebral está preparado para essa nova realidade. Mas sabemos que existem uns 500 e tantos milhões de pessoas coexistindo no ambiente Facebook. Elas não se conhecem, não falam necessariamente a mesma língua, não têm os mesmos gostos, mas revelam a anseidade de um mundo vertiginoso, onde a mudança está na rede. E esta rede social representa espamos intensos de liberdade individual.

Feliz 2011.

Postado por Jacques Meir (propagandasustentavel@gmail.com)


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